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Ailton Krenak “canta, dança e suspende o céu”. Agora na ABL – Jornal da USP

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É uma imensa alegria comemorar o ingresso de Ailton Krenak na Academia Brasileira de Letras.

Ailton é uma das principais lideranças do movimento indígena e do ambientalismo, personalidade que dispensa por sua trajetória maiores apresentações. Nas últimas três décadas, Ailton foi arauto e comunicador entre mundos, pontuando com suas palavras e ações uma crônica altamente qualificada, já que enraizada na agenda política dos coletivos indígenas.

Diria que sua crônica trata particularmente bem do como e do porquê o movimento indígena constrói e desconstrói suas alianças, contra a tutela do Estado e da Igreja. A trajetória de Ailton Krenak ilumina os sentidos do movimento indígena, por ela se acompanha as apostas em um futuro para os povos indígenas e tradicionais construído pela geração de pensadores e lideranças indígenas no final da década de 1980, quando participou da elaboração dos capítulos sobre o direito diferenciado dos povos indígenas da Constituição de 1988.

Geração de lideranças indígenas que, eufórica, investiu na construção de um projeto alternativo para os Povos das Florestas, programa que rejeitava políticas do Estado baseadas nas ideias de integração e desenvolvimento e que se articulava em torno de uma plataforma que reunia aqueles que compartilham, a despeito de suas diferenças, o entendimento que a natureza é o lugar comum para estes povos viverem e construírem seus projetos de futuro. Geração de líderes que vem assistindo nos últimos anos à traição de seus projetos e ao gradativo desmonte dos pactos pela defesa dos povos indígenas. Que testemunhou mais recentemente a morte dos rios e o impacto desse “coma” hídrico em que foram colocados os rios e suas gentes: indígenas, quilombolas, ribeirinhos, aqueles que, nas palavras de Ailton, foram “divorciados do corpo do rio”.

A fala de Ailton Krenak ganhou o espaço público em 1986, quando integrou a Coordenação Nacional da União das Nações Indígenas (UNI), fórum intertribal interessado em estabelecer uma representação do movimento indígena em nível nacional. Como liderança da UNI, defendeu na Assembleia Constituinte em 1987 os capítulos referentes ao Direito Diferenciado dos Povos Indígenas, em performance inesquecível diante do Congresso. Em 1988 participou da criação da Aliança dos Povos da Floresta, que na ocasião defendeu como uma atualização institucionalizada das alianças e parcerias muito antigas entre povos indígenas e seringueiros, pela preservação da floresta. O movimento foi pioneiro na discussão da urgência da valorização, por meio da educação diferenciada e de ações políticas, dos modos indígena e tradicionais de gestão das florestas.

Essa nova aliança se assentava nas dinâmicas de um processo de “civilização” movido pelos povos indígenas em direção aos seringueiros e quilombolas moradores das florestas, que aprenderam e compartilharam com os povos indígenas “de uma memória muito forte da criação do mundo”, nas palavras de Ailton Krenak. Desde a década de 1970 os seringueiros lutavam pela criação das Reservas Extrativistas, mas as campanhas da Aliança dos Povos da Floresta se voltavam agora para os moradores dos centros urbanos, estratégia que visava engajar os seguimentos urbanos em um projeto político seminal de proteção das florestas, ao mesmo tempo em que investia em dar visibilidade aos modos de vida dos habitantes das florestas.

Nas últimas três décadas, Ailton Krenak recebeu vários prêmios, publicou ensaios e os livros Como um rio como pássaro, em 1999, e O lugar onde a terra descansa, em 2000. Participou de filmes e documentários e foi pioneiro na comunicação de narrativas indígenas pelas ondas dos rádios, antecipando algo que hoje elogia no movimento dos criadores do cinema indígena, a importância do controle pelos indígenas das narrativas. Em suas falas, marcadas por verve afiada, nos brinda com frases lapidares. Sobre as políticas assistencialistas para os povos indígenas dos últimos 15 anos, baseadas na distribuição de bolsas-família e subsídios variados, lança: “há muitas formas de se sacanear um povo.” Aponta também para os perigos de captura pelo Estado das jovens lideranças indígenas, que ao passarem a atuar nos setoriais da Saúde e Educação dos Estados, correm o risco de se verem exauridos em sua capacidade de mobilização em prol do movimento indígena.

Em 2016, Ailton Krenak recebeu o título de Professor Honoris Causa, outorgado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, por iniciativa do Departamento de Botânica e do Instituto de Ciências Biológicas, unidades de ensino onde Ailton Krenak atua desde 2014, ministrando no curso de especialização Cultura e História dos Povos Indígenas a disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais. O título honorífico foi na ocasião celebrado por Ailton como uma vitória coletiva, a universidade se abria para outras formas de conhecimento, criando condições de troca entre saberes. A homenagem da Universidade de Juiz de Fora ganhou ainda mais sentido na circunstância do crime ambiental que atingiu a cidade de Mariana, quando o povo Krenak e outras comunidades ribeirinhas foram vítimas da morte do rio, causada por asfixia por lama tóxica, que ocorreu no dia 5 de novembro de 2015.

Ailton se somou àqueles que denunciaram que ali ocorrera um crime, e não um acidente, como o Estado brasileiro e as corporações envolvidas tentaram posteriormente minimizar o acontecimento. Se somou àqueles que responsabilizaram por este crime os engenheiros da Vale, da Samarco, administradores do governo das esferas nacional e estadual, a Agência Nacional das Águas, o Comitê das Bacias, que Ailton Krenak sagazmente rotulou como articuladores das “linguagens despistantes”, acionadas com a intenção de se esquivar das responsabilidades diante do crime ambiental hediondo.

É também na crônica de Ailton Krenak que encontramos os únicos registros dos efeitos da tragédia de Mariana causados nos moradores do Vale do Rio Doce. A partir da tragédia, o povo Krenak e outras comunidades de ribeirinhos da região passaram a ter que se adaptar a uma existência medíocre, de gente “divorciada do corpo do rio”, rio que permanece cauterizado, morto, coberto de uma lama plástica que impede qualquer forma de vida. O povo Krenak, depois do crime ambiental, passou a ser alvo de uma política assistencial do Estado que distribui tonéis de água semanalmente e prove pacotes de garrafas de água mineral para consumo nas casas.

Afirmando que não aceita declarações de “xeque-mate, fim do mundo ou fim da história”, Ailton Krenak permanence atuando em muitas frentes, sendo uma das mais antigas o Núcleo de Cultura Indígena, que realiza periodicamente o Festival de Dança e Cultura Indígena, na Serra do Cipó (MG), evento que promove o intercâmbio entre os coletivos indígenas e suas “parcerias afetivas”, como gosta de definir. Em momentos difíceis, Ailton Krenak tem frisado que “é quando eu mais evoco esse pensamento: cantar, dançar e suspender o céu”.

Parabéns, Ailton Krenak.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)





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