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Aos 90 anos, a memória de vozes uspianas no seu cinquentenário – Jornal da USP

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Com a permissão dos leitores, vou deslizar em dois tempos dos aniversários da Universidade de São Paulo: os 50 anos completados em 1984 e os próximos 90 a serem comemorados em 2024.

Dia 25 de janeiro de 1984. Amanhece e hoje estão marcadas várias efemérides: o aniversário de São Paulo, cidade fundada em 1554; trinta anos da Catedral Metropolitana; trinta anos da Academia Paulista de Ciências; cinquenta anos da Associação de Geógrafos Brasileiros; noventa anos da Escola Politécnica; e o cinquentenário da Universidade de São Paulo, instituição implantada pelo decreto 6.283 de 1934, assinado pelo interventor Armando de Salles Oliveira. Às 15 horas, o reitor Antônio Hélio Guerra Vieira convida a comunidade acadêmica para, na Cidade Universitária, participar da solenidade no Anfiteatro de Convenções da USP.

Talvez a festa seria única em destaque, não fosse o significativo evento das 16h30 no centro de São Paulo – o Comício das Diretas ou pró Eleições Diretas. De qualquer forma, há público suficiente para atender a este inusitado dia em que o desenvolvimento da ciência na Universidade paulista se casa com a luta pelo restauro da democracia no Brasil. O Vale do Anhangabaú certamente vai lotar, e a festa dos 50 anos da Universidade de São Paulo também receberá aqueles que valorizam o conhecimento científico e a sociedade que dele se beneficia.

(No meu caso, reflito hoje, novembro de 2023 quando escrevo este texto, eu não tinha como escolher: era preciso trabalhar naquela histórica tarde na Cidade Universitária para reportar, como jornalista de O Estado de S. Paulo, a solenidade da USP de 1984. Haviam saído naquela manhã, no diário paulista, duas páginas com a reportagem que preparara antes, anunciada nos títulos: 1934. São Paulo abre sua universidade, última página, e na página 10, USP, marco da ciência no Brasil. O diretor da empresa jornalística me chamara um pouco antes e me encarregara dessa empreitada. Muito provavelmente porque sabia de meus antecedentes. Agora era editora de artes e cultura no jornal, mas antes, em 1975, saíra da universidade por motivos políticos, assunto que está registrado no Relatório final da Comissão da Verdade da USP, vol. 8. Não vale a pena aqui relembrar. O fato é que Júlio Mesquita Neto me delegou a cobertura sobre os 50 anos da Universidade. E no dia em que a reportagem sai publicada, devo acompanhar os festejos na USP, não posso ir ao Vale do Anhangabaú onde aconteceria o outro evento, o histórico Comício das Diretas. Por coincidência, no início de janeiro, passava por Curitiba para entrevistar escritores brasileiros contemporâneos, numa série sobre as literaturas de língua portuguesa, e tive a oportunidade de estar presente no Primeiro Comício das Diretas-Já, em 12 de janeiro de 1984.)

Volto à memória de quarenta anos atrás. O jornal O Estado de S. Paulo tem seus motivos para dedicar hoje duas páginas, a última, inclusive um espaço nobre, para a fundação da USP. Dr. Júlio Neto (1922-1996) me recomenda empenho na pauta do cinquentenário da USP. Seu pai, Júlio de Mesquita Filho (1892-1969), junto com intelectuais e políticos paulistas, haviam liderado a campanha pela renovação do ensino superior em São Paulo desde a década de 1920. Tal ideário se tornou realidade nos anos 1930. Nas duas semanas em que percorro a Universidade em 1984, me disponho a reportar as vozes que guardam memórias preciosas dos anos 1930, tanto representando o pensamento das personalidades locais como dos que vieram nas missões estrangeiras. Uma questão a levantar: havia sintonia entre eles quanto à noção de uma moderna universidade? E por falar na contribuição externa, o calendário de celebrações do cinquentenário contempla, na sua agenda, em fim de março, a aula inaugural do sociólogo e antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), um dos mestres muito festejados na Universidade de São Paulo após sua criação.

(No meu caso pessoal, levantar traços da memória desta universidade brasileira remete à decisão do casal Medina – Sinval e eu, mais dois filhos pequenos, Ana Flávia, cinco anos, e Daniel com um ano – de migrar para São Paulo em dezembro de 1970. Como assistente de catedrático na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, contratada em 1967, três anos após me formar em Jornalismo e Letras na Faculdade de Filosofia da URGS, sentia necessidade de continuar os estudos, a pesquisa, na minha área. O horizonte convidativo residia na diferenciação acadêmica que a USP já consagrara. No fim dos anos 1960, chegava a notícia de que a universidade paulista iria implantar o primeiro pós-graduação em Ciências da Comunicação; vim a São Paulo em julho de 1970 para participar da Primeira Bienal do Livro, pois trabalhava também na Editora Globo de Porto Alegre, ao mesmo tempo em que exercia a docência universitária. Aproveitei para visitar a jovem Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo. Além de colher informações sobre a implantação do curso de pós-graduação, o contato com o professor José Marques de Melo (1943-2018) resultou em um convite muito especial e inusitado: deixar a universidade gaúcha e vir trabalhar no Departamento de Jornalismo da ECA-USP. A família aportou em São Paulo no fim de 1970 e em janeiro de 1971 era contratada pela universidade paulista. O curso de pós-graduação só foi aprovado em 1972, o casal Medina faria parte da primeira turma e, em 1975, defendi a primeira dissertação de mestrado. No ano passado, 2022, quando se celebraram os 50 anos desse programa pioneiro na América Latina, havia sim, muito a comemorar quanto aos frutos das três vertentes – pesquisa, docência e comunicação com a sociedade. No fundo, pode-se dizer, significava a construção ímpar de uma área em total sintonia com a identidade criativa que inspirou os fundadores da USP em 1934.

Por isso mesmo, quero voltar aos depoimentos que reportei no cinquentenário. Recortarei, em síntese, de um conjunto registrado nas duas páginas do jornal há 40 anos, apenas alguns testemunhos que salientam o espírito da integração simbolizada pela primeira Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, núcleo de uma nova concepção de universidade há 90 anos.)

Assim, em duas semanas de janeiro de 1984, se bem me lembro, vou ouvir pesquisadores em todas as áreas do saber uspiano. Seleciono uns poucos mas significativos depoimentos desse encontro e dessa escuta epifânica do coletivo uspiano:

Paul Arbousse Bastide (1899-1985), filósofo francês e um dos poucos sobreviventes da missão estrangeira, passando por São Paulo no ano do cinquentenário, assim analisa o percurso da Universidade: “[…] era preciso enriquecer o aspecto conceitual da vida universitária”. E aposta no futuro: “[…] pouco a pouco o brasileiro vai escapar desta sede de engolir um sistema ideológico fechado”. A vantagem do Brasil para Bastide é o contexto de uma civilização por se fazer. Aqui “[…] os acontecimentos têm uma aceleração histórica violenta. O que acontece em 50 anos levaria cem na França”.

Já um discípulo da missão estrangeira, com obra consagrada na área da literatura e língua brasileiras, Antônio Soares Amora (1917-1999) acentua no seu diagnóstico os graduais avanços da universidade paulista nestes 50 anos: “[…] por mais que nós fôssemos dotados de um ideal, estávamos condicionados por um ensino livresco; professor era aquele que tinha lido mais; o que mais me deslumbrou, primeiro em Rebelo Gonçalves, na Filologia, e depois em Fidelino de Figueiredo, na Literatura Luso-Brasileira, ambos da missão portuguesa, ou ainda nas aulas do poeta italiano Ungaretti e demais professores estrangeiros, é que eles não estavam preocupados em dar uma aula e sim, continuar a desenvolver uma especulação ou teorização ou pesquisa”.

Também Egon Schaden (1913-1991), antropólogo discípulo de Lévi-Strauss na primeira geração uspiana, e que implantara no primeiro Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA-USP, em 1972/73, a disciplina inédita “Antropologia da Comunicação”, pondera em 1984: “[…] o grande valor da missão foi quebrar com nosso verbalismo institucionalizado e implantar o espírito crítico; a universidade é o lugar onde os espíritos se encontram, se confrontam”.

Benedito Castrucci (1909-1995), formado em Ciências da Matemática e Física em 1939 na USP, expressa, com historiadores e filósofos, uma avaliação unânime da contribuição da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras: “[…] convivíamos com os professores estrangeiros e não ouvíamos aulas pautadas por apostilas (sebentas à época)”.

O reitor da Universidade, festejando o cinquentenário, aplaude a integração do núcleo implantado em 1934. Antônio Hélio Guerra Vieira tinha quatro anos quando a USP foi fundada. Hoje, no dia dos 50 anos, como politécnico e completando o quarto ano de gestão de uma complexa instituição acadêmica, faz algumas importantes observações: “[…] na perspectiva comparativa Europa e Estados Unidos, o principal problema é o fato de não terem conseguido a perfeita convivência entre as escolas profissionais e as universidades que se dedicam à ciência”. Para o reitor, porém, a USP atesta vitórias: “[…] o diálogo entre a investigação científica e as preocupações profissionalizantes; mais uma vitória, os territórios em que as pós-graduações se movem, vão muito além do provincianismo estadual, a USP se comunica com todo o território brasileiro, países da América e outros continentes”. O engenheiro Hélio Guerra também faz questão de citar a ação cultural, a exemplo do Museu de Arte Contemporânea e a Orquestra Sinfônica, regida por Camargo Guarnieri (1907-1993), que assumira em 1975 a recém-criada Osusp.

(Volto às observações de novembro de 2023, para testemunhar, na minha própria experiência, o significado da Universidade de São Paulo. Na docência, na pesquisa do primeiro pós-graduação, e na prática comunicativa de duas vias, ciência/sociedade, sociedade/ciência – porque assim prefiro nomear o tradicional extensionismo cultural de uma só via –, a mudança da universidade pública gaúcha para a pública paulista abriu horizontes espaciais e, acima de tudo, a vivência cosmopolita conjugada com a bibliografia científica sem fronteiras. Para ser justa com minha formação universitária em Jornalismo e Letras nos primeiros anos de 1960, não posso deixar de referir o privilégio dos cursos estarem, à época, integrados na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Daí o aprofundamento humanístico e as aspirações por uma sociedade mais justa que alicerçaram tanto a profissão de jornalista quanto a de educadora no início dos anos 1960. No caso da segunda opção, hoje paralela em 60 anos à primeira, é de vital importância lembrar as inovadoras disciplinas didáticas na URGS. Daí aderi à dinâmica do processo ensino-aprendizagem que muito pesou para que, no Jornalismo, não atuasse na simples distribuição ou divulgação da notícia, mas procurasse a linguagem dialógica, ou melhor, pluralógica, do signo da relação. E a seguir, foi no espírito de pesquisa das raízes uspianas que, a partir de dezembro de 1970, encontrei cada vez mais motivações de aperfeiçoamento. Claro, não se pode omitir os inerentes espinhos e abalos das crises que enfrentei. Por isso sempre lembro o paleontólogo e biólogo estadunidense Stephen Jay Gould (1941-2002), que em seu livro Seta do tempo, ciclo do tempo nos faz acrescentar à ideia de progresso a implacável força das recorrências. Por isso, talvez as crises recorrentes, os abalos sísmicos, as guerras, as derrotas sociais venham à tona para matizar com certo pessimismo ou realismo as utopias evolucionistas.

E, por incrível que pareça, a narrativa do cinquentenário da USP que ensaiei construir em 1984 não reunia apenas discursos eufóricos. Mesmo porque, no pano de fundo coletivo, lutava-se com unhas e dentes pela redemocratização do Brasil e, no mesmo dia da festa da Universidade, praticamente à mesma hora da tarde, um grande afluxo de multidão se dirigia ao Vale do Anhangabaú para o Comício das Diretas-Já.)

Retorno às minhas interrogantes de janeiro de 1984. São muitos os vestígios históricos a levantar sobre o contexto da origem da Universidade, nos anos 1930. Um deles vem fortemente marcado por crises políticas que se sucedem até chegar ao seu cinquentenário. Encontro, nos arquivos do jornal, um pronunciamento de Júlio de Mesquita Filho dos anos 1950. Assim interpreta a gênese da USP: “[…] ela brotara no espírito daqueles que, desde 1922, viam que o Brasil se encaminhava para uma solução violenta da sua crise política. E, depois da derrota de São Paulo em 1932, que significou um profundo golpe na democracia em nosso país, mais necessária se tornou, ainda, uma reforma profunda”.

Para o então diretor de O Estado de S. Paulo, a criação da Faculdade de Filosofia dava a vitória, nesse testemunho de 1950, à divisa da universidade paulista: Sciencia vinces. O que nem todos percebiam é que, no íntimo, significava para alguns líderes: Vencido nas urnas, Paulista, vencerás pela Cultura. E Irene R. Cardoso, entre os muitos sociólogos uspianos, interpreta essa articulação da elite paulista que culmina em 1934, como o projeto que “[…] nascia do confronto político que, nos anos 30, se acentuava contra o fascismo”. O que conflui outra vez com a conclusão de Júlio de Mesquita Filho, vinte anos depois e que registro no jornal, em 1984, com o título Pioneiro da utopia liberal: “[…] éramos irredutivelmente liberais. Tão convictamente liberais, que nos julgávamos na obrigação de tudo fazer para que o espírito em que se inspirasse a organização da Universidade se mantivesse exacerbadamente liberal”.

A sociologia, um dos eixos fundantes da USP, pluralizou as reflexões, mas sempre ganha ênfase a análise política ao longo dos 50 anos. Neste cinquentenário, uma das visões contundentes vem de Florestan Fernandes (1920-1995). Seu currículo atesta domínio acadêmico: vinte anos de dedicação à USP, preso em 1964 e em 1965, exilado pelo AI-5, foi, inclusive, professor assistente em 1945 de outro consagrado pai fundador da Educação no Brasil, Fernando de Azevedo (1894-1974). Na reportagem do cinquentenário, em sua casa, interpreta o percurso liberal da Universidade e reconhece que “[…] o ponto de partida foi muito rico, os estrangeiros traziam consigo uma sabedoria intimidadora, mas o desafio era esmagador”. E então sinaliza um caos das dúvidas partilhadas, segundo ele, com Antonio Candido (1918-2017). Para Florestan “[…] o traço negativo da missão estrangeira era a falta de consciência das limitações brasileiras”. O sociólogo assim sintetiza seu diagnóstico: “[…] por um lado, o orgulho diante da geração de cientistas que surgiu; por outro lado, a decepção dos jovens intelectuais que se recusaram a assumir o papel de elite ou que simplesmente não corresponderam às expectativas liberais”.

Já o naturalista Erasmo Garcia Mendes (1916-2001) se situa num outro polo de análise e faz questão de somar sua avaliação à do minerólogo Reinaldo Saldanha da Gama (1905-1990). Ambos comemoram sem restrições os 50 anos da USP. Para eles, o cinquentenário reafirma que a moderna ciência brasileira nasce na USP: “[…] os primeiros frutos da árvore plantada por Armando e Julinho foram colhidos logo após a formatura dos primeiros licenciados, aparecem mineralogistas, físicos, químicos, só em Ciências, que se espalham pelo Brasil e hoje são os grandes condutores da moderna ciência no País”.

No box da página nobre do jornal publicada hoje, dia 25 de janeiro de 1984, junto com o título geral – USP, marco da ciência no Brasil – aparece um texto de pé de página que editei, com outros depoimentos, sob o título Crise, a constante. Os andaimes dos problemas orçamentários cercam o complexo do desenvolvimento científico da Universidade. Pouco antes dos festejos, são divulgados os índices de reajuste dos professores de ensino superior do Estado de São Paulo, privilegiando a área de pesquisa e a docência em tempo integral. Nem todos ficam contentes – ecoam gritos e reclamos dos não contemplados. Por curiosidade, pulo nos arquivos do jornal para os anos 1940 e lá encontro notícias do mesmo problema, ou seja, as crises orçamentárias e a remuneração do professor. Embates de várias correntes que se sucedem ora nas ditaduras, ora nos períodos democráticos – políticos, econômicos, sociais e ideológicos. Neste painel conflitivo, convergências e divergências convivem, segundo o crítico e historiador da sociologia da literatura Alfredo Bosi (1936-2021), em um processo assim definido por ele no cinquentenário: “[…] a Universidade, instalada na região mais dinâmica do País e na cidade que atingiu as mais elevadas taxas de industrialização e imigração, não poderia, com o advento da civilização de massas, conter-se no projeto ideal de seus fundadores”.

(E citando outra vez Stephen Jay Gould, nesses rumos complexos e contraditórios, com recorrências de crises no círculo do tempo, a força da seta do progresso vai conquistando velocidade. Agora, final de 2023, às vésperas dos 90 anos de existência, a idade madura da USP vem atestada por certificações especializadas como universidade de qualidade em toda a sua concepção. Os rankings internacionais o comprovam. Problemas? Muitos. Como sempre. O mais recente envolve outra vez a luta orçamentária perante demandas atuais de alunos, funcionários e professores. Ao mesmo tempo, sucedem-se esforços da atual gestão para distensionar esta densa comunidade uspiana, mais de 120 mil estudantes, professores, pesquisadores e funcionários registrados no Anuário Estatístico 2023. O atual reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior e a vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda assinaram uma mensagem a 28 de outubro de 2023, agradecendo, no Dia do Servidor Público, todo o empenho em oferecer um serviço público de qualidade, seja nas atividades-meio, seja nas atividades-fim da Universidade. Reconhecendo todos os desafios, diria que atuais e históricos, a USP, como instituição pública: “[…] tem como dever prestar contas à sociedade que a mantém e dar transparência de todas as atividades que desenvolve”.

Reitor e vice-reitora reconhecem as restrições orçamentárias e as sequelas da pandemia da covid-19 pelas quais passamos nos últimos anos. E prestes a festejar seus 90 anos “[…] a USP deve refletir sobre seu futuro como instituição pública, contando com seus servidores públicos na construção de uma Universidade mais inovadora, acolhedora e eficiente no cumprimento da sua missão”.

Abandono por fim este alternar em dois tempos: o da memória do cinquentenário, presentificado no registro de algumas das tantas vozes que recolhi em janeiro de 1984; e o dos parênteses de ordem mais pessoal escritos em novembro de 2023, às vésperas dos 90 anos da USP.

Quis compartilhar meu sentir de quão importante tem sido esta instituição na minha trajetória de jornalista, pesquisadora e educadora. Fui beneficiada na era das anistias e reconstruções democráticas, com a reintegração aos quadros da Universidade após dez anos de exílio (1975-1985). Um retorno, pela primeira vez, em tempo integral, que me deu a chance de prosseguir como nunca a pesquisa, os estudos permanentes junto à comunidade da docência, dos parceiros do Projeto Plural, inter e transdisciplinar, com a participação aliada de dedicados funcionários e alunos de graduação, pós-graduação e pós-doutorado.

Já entrei na sexta década de vivência acadêmica e hoje, como sênior, tenho o privilégio de fazer coro às comemorações dos 90 anos da Universidade de São Paulo. Não quero que o pessimismo volte à tona em tempos trágicos de guerra, de indefinição do destino humanista e humanizante do momento histórico que vivemos. Leio ensaios como o de Daniel Afonso da Silva, A banalização de tragédias sem fim (publicado no Jornal da USP em 16 de outubro de 2023), percorro seu itinerário do século 15 aos dias de hoje, sua construção erudita dos ideais da Razão que recorrentemente vêm desaguar na Desrazão alucinada das guerras. Fico então tentada a confessar com suas palavras: “[…] muitos pesos e muitas medidas. Não tem como suportar”. E conclui neste texto contundente: “[…] sem um reposicionamento do Ocidente, dos ocidentais, europeus e norte-americanos, no cenário mundial, uma nova história vai ter fim. Mas, dessa vez, talvez, o seu último”.

Vale-me recorrer também, nos desvãos da história do humano ser, a outro pensador que conheci pessoalmente em um congresso internacional em Buenos Aires (1990), o Prêmio Nobel de 1977, Ilya Prigogine (1917-2003). Na conferência em que apresentava, como químico e físico, o estado de caos da matéria, nos alentava com a possibilidade indeterminada de, nesse caos, emergir um ato emancipatório. Pois que assim seja no mundo atual.

Quanto à Universidade de São Paulo, vislumbro vários atos emancipatórios ao longo destes noventa anos.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)





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