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Trilogia do cinema ajuda a aprimorar habilidades de futuros médicos – Jornal da USP

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A metodologia aplicada, role play, usou trama dos filmes “Jogos Vorazes” em estudantes do ciclo básico da FMRP, simulando atendimento de saúde em locais precários nos confins do Brasil

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Pesquisa da USP utiliza recurso role play para aperfeiçoar a medicina básica de família – Fotomontagem: Jornal da USP – Imagens: macrovector/Freepik, Freepik e IMDb

 

O atendimento médico em locais ermos onde há falta de recursos e carecem de profissionais preparados para lidar com as particularidades daquela população, muitas vezes em situações de vulnerabilidade, ainda precisa ser aprimorado. Essas situações podem ser facilmente associadas com os distritos descritos na famosa trilogia dos Jogos Vorazes, em especial o distrito 12, moradia da protagonista Katniss Everdeen, interpretada pela atriz Jennifer Lawrence. 

Na obra, a sociedade é dividida em distritos que suprem as necessidades da capital Panem. Pensando em uma forma de desenvolver e inovar a educação médica, principalmente no ciclo básico do curso, a mestranda da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e residente em Medicina da Família e Comunidade do Hospital das Clínicas da FMRP, Cely Carolyne Pontes Morcerf, propôs utilizar a metodologia role play para simular situações reais que esses futuros profissionais vão enfrentar, utilizando como pano de fundo a narrativa da trilogia dos Jogos Vorazes. Essa adaptação, segundo Cely, despertou a curiosidade dos alunos e fez com que o desenvolvimento de habilidades sociais fosse facilitado e compreendido pelos participantes. 

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Cely Carolyne Pontes Morcerf – Foto: Arquivo pessoal

O role play, muito utilizado em jogos que procuram simular batalhas medievais repletas de fantasias, os RPGs (Role Playing Games), também pode ser utilizado para simular situações reais através da dramaturgia, em que os participantes assumem papéis pré-definidos.

No caso do trabalho desenvolvido por Cely, a ideia foi “desenvolver e trabalhar competências e habilidades de comunicação clínica tendo a estratégia da Saúde da Família como pano de fundo. Essa foi uma forma de mostrar aos alunos o que é essa medicina social, a medicina de família e comunidade, e como está o campo de trabalho e a necessidade do Brasil para o atendimento das famílias, considerando os determinantes sociais em saúde”, avalia.

Para explicar o trabalho, que foi orientado pelo professor João Mazzoncini de Azevedo Marques, Cely afirma que utilizou uma linguagem mais próxima dos alunos que acabaram de ingressar na Universidade, utilizando um diálogo, como o da obra Jogos Vorazes, em especial os que envolvem os problemas sociais presentes no distrito 12. Segundo ela, a estratégia aproximou os estudantes da realidade de ambientes menos favorecidos. “Foi uma forma de discutir e problematizar a questão de classe social e vulnerabilidades, mostrar a importância desse olhar social e das questões da riqueza, da pobreza, da fome, da miséria, da falta de recursos”, afirma. 

Além disso, a metodologia de encenação faz com que os alunos tenham que trabalhar em equipe para conseguir desenvolver as habilidades sociais e enfrentar os desafios diante de atendimentos complexos, assim como a protagonista dos filmes da saga Jogos Vorazes propõe para acabar com a competitividade de pessoas que lutam por uma mesma causa. 

A aplicação do role play

Na metodologia proposta, os participantes foram 50 alunos do segundo ano de Medicina da FMRP que utilizaram o role play para atuarem na figura de um médico recém-formado, atendendo em uma zona rural remota no Brasil, que segundo Cely é uma grande necessidade da saúde pública do País. 

No estágio inicial de atuação médica, as competências e habilidades de comunicação, desenvolvimento clínico e o trabalho em equipe ainda não estão totalmente desenvolvidos e são essenciais em um ambiente que realiza o atendimento da saúde da família. A fim de aprimorar essas habilidades, os alunos assumiram papéis diferentes na simulação. 

Durante a atuação os alunos foram divididos em papéis de médico, enfermeiro, terapeuta ocupacional e paciente de uma população em situação de vulnerabilidade. “Então nós fizemos pausas em momentos-chave, nos quais o aluno teria que discutir sobre aquele cenário, sobre o papel que ele desenvolveu e como é que poderia mudar aquela situação, expondo as dúvidas e dificuldades que ele teve durante o atendimento”, explica Cely.

Encarando os futuros desafios

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Estudo da médica aponta que utilizar dramaturgia traz um caráter reflexivo para o aluno enquanto incorpora um papel – Imagem: Reprodução/FMRP-USP

Um dos motivos para escolher a simulação role play no ensino médico, principalmente no ciclo básico, é poder antecipar questões que os alunos vão enfrentar com os casos clínicos e na relação médico-paciente. “Os alunos de Medicina do ciclo básico ainda nem pensaram sobre esses problemas que vão confrontar. Só vão perceber durante os atendimentos, tanto na estratégia de saúde da família, quanto em especialidades focais”, explica Cely.

Como benefícios para a medicina, utilizar dramaturgia traz um caráter reflexivo para o aluno enquanto incorpora um papel. “Às vezes ele acha que sabe tudo da teoria que estudou nos diversos referenciais, mas quando chega no confronto simulado ele vai antecipar algo que vai ver na prática médica. É aí que ele acessa a teoria e lembra dos conceitos e reflexões que teve e, assim, consegue unir a teoria à prática no momento em que estiver de frente para o paciente. É uma forma de fazer uma curva ascendente do desenvolvimento desta personalidade”, afirma a mestranda.

Ao final de tudo a gente conseguiu construir com os alunos o conhecimento. Não foi nada passivo, não foi nada imposto, o conhecimento era construído junto com o aluno, de algo que eles estavam estudando. Dessa maneira, conseguiram trazer respostas para as próprias perguntas. A beleza disso é ensinar e falar sobre o método clínico centrado na pessoa de forma reflexiva e antecipada, preparando os futuros profissionais para os desafios que irão enfrentar”, conclui Cely.

*Estagiário sob supervisão de Rita Stella e Rose Talamone





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